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Mundaréu

Do livro Semeador do Tempo

Por Osvaldo Morais

- Êh, mundaréu!
Disse o velho Antonio dos Anjos, acercando a vista pela paisagem verdejante daquela manhã fria.
Mundaréu incompreensível aos seus olhos de homem simples para as coisas mundanas… Mas era ele sábio para as coisas humanas. O sol abriu manso por trás das nuvens baixas quando me aproximei.
- "Seu" Antonio acordou alegre, hein?
- Com um dia desse? A lindeza desse lugar nunca ame fez acostumar.
A cada dia me pergunto como as pessoas se enfezam tanto, pisando um quadro divino, respirando o sopro de Deus! Eu nada disse, apenas o olhei admirado. Ele me olhou com um olhar daquela gente que vê o semelhante sem a máscara e a capa que o esconde de si mesmo e disse:
- Venha, vamos aproveitar a brisa da manhã - Pegou um balde que havia dependurado na paredde da cozinha atrás de si e continuou: - Vamos ali para aproveitar a natureza desse lugar, para você levar alguma lembrança boa.
Andamos por entre o pasto, anelando-nos numa vereda, onde à volta havia um mato ralo com folhinhas sustevam o orvalho matutino. Assim chegamos num curral contendo em seu interior algumas vacas que mungiam. Nada além. Com seu jeito lento, porém definido de homem do campo, dependurou o balde num poste do curral.
- Primeiro vamos andar um pouco por aí - anunciou.
Estávamos num lugar alto do pasto donde vislumbrávamos paisagens outras de grande beleza pelo verde da região, pelas árvores nativas e acidentes geográficos interessantes. A visão se descortiva sublime, bentivis bincavam de voar sobre os animais soltos na pastagem. Mais à frente serras verdes e azuis davam um colorido armonioso com as florezinhas amarelas que brotavam naquela época do ano.
Ele me inquiria com um olhar feliz, como se me mostrasse a oitava maravilha do mundo, como que até então estivesse desconhecida, e ele, então, a descobria como um conquistador de mundos. Então me propôs:
- Feche os olhos com a imagem desse mundão na mente, meu amigo. Agora respire profundamente o ar puro.
Encheu-me o peito do ar balsâmico e fresco da manhã, numa sensação leve e agradável de vida plena. - Não é o sopro de Deus?- perguntou "seu" Antonio.
E era mesmo.
- Agora ouça o cantar dos passarinhos - continuou. Não é a música dos anjos?
Ouvi. E era a música celestial, realmente. Abri meus olhos e vi o velhote adiante portando um inocente sorriso largo, orgulhoso por estar ali como se fosse orgulho de obra sua.
Balbuciei:
- Entendo porque o senhor vive tão alegre…
Ainda o segui por algum percurso até deparar-se diante dumas flores silvestres abundantes naquele lugar.
Ele voltou a falar:
- Veja essas flores tão simples e tão bonitas. O povo que diz que Deus não existe será capaz de criar uma flor igual a esta? - apontou. O cientista que nega Deus pode me afirmar que faz, ele, então, uma igual a esta?… Respire o perfume desta flor, será que o homem pode fazer uma igualzinho também? - parou um pouco e continuou: Pode imitar, agora fazer igual nunca. Por isso que o homem imita Deus, quando não consegue ser igual, então nega que existe. Concordei que ele estava com a razão, quando se desengachou de diante das florezinhas e voltou a andar pela pastagem. Eu o seguia de perto, quando pareceu ter uma idéia abruptamente.
- Sabe de uma coisa? Quando eu morrer vou pedir ao Criador pra me deixar viver aqui.
- Ora, o senhor acrdita em reencarnação?
- Não entendo disso, não. Mas sei que tanta coisa no mundo perfeita, onde tudo se encaixa certo não é por ser à toa. Acho que o Criador também não faz nada dde uma vez só… Ajeita uma coisa aqui, outra ali… Cada coisa no tempo certo, não é?
- ? - não soube o que dizer.
- Pois veja - ajuntou ele. Eu sou um homem ignorante das letras, não sou?
- Sim… - respondi.
- Então para que eu me torne um doutor das letras terei que estudar na escola durante muitos anos…
- É!- cocncordei.
- E para o aluno que não aprendeu não vai ter que repetir de ano? Você mesmo vê as belezas que eu estou mostrando, pois outros vêm aqui e nada vêem, a não ser um pasto.
Entendi. Entendi também que muitos sábio aparecem disfarçados de tabaréus apenas para descobrirem o mundo gigantesco escondido nas coisas pequenas e simples. E também que o mundo é do tamanho que a nossa compreensão tem, mundo vasto, mundaréu.
E o senhor Antonio dos Anjos do descampado fresco da aourora matutina esticou os braços como que querendo abraçar a Natureza.
- Ê, mundaréu!




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