INTRODUÇÃO
A
nação dos índios
kiriris (ou cariris, quiriris), se
estabelecia ao longo de grande quantidade
de terra no Nordeste. Tem um passado
de glória, sendo estudados até pelo
grande historiador Capistrano de Abreu,
mas que no decorrer do processo colonizatório,
onde a prioridade dos governos sempre
fora ocupar o interior, os colonos
acabaram por invadir as terras kiriris,
desfacelando a nação.
O povo ficou fragmentado em muitas
comunidades, umas distantes das demais,
cada uma delas as margens da sociedade
dos “brancos”, prestando
pequenos serviços aos seus próprios
invasores para a sua sobrevivência.
Os kiriris de Mirandela chamam a atenção
por possuírem um enredo curioso
e conflituoso, com chamadas constantes
na imprensa, mediante os conflitos
e o convívio com os posseiros
em suas próprias terras. Nesse
convívio, os kiriris pouco a
pouco acabaram por absorver a cultura
dos “civilizados”, ao mesmo
tempo em que perdiam sua identidade
de povo.
Uma cultura bonita, com peculiaridades
de rituais, crenças, línguas,
dentre tantas, quase perdida na memória
do tempo, das Misturas e mestiçagens
por séculos.
Por outro lado verifica-se todo um
trabalho voltado ao resgate cultural
desse povo. Agora se faz um trabalho
inverso: aculturá-los, porém
com outros índios da mesma origem,
com aqueles que mais resistiram com
as suas tradições.
A situação das comunidades
indígenas chega a ser bastante
preocupante na atualidade, em razão
dos agravantes abandonos e descasos
por parte de todos. É o caso
da tribo kiriri de Mirandela, onde
mesmo tendo conseguido a demarcação
e posse de sua reserva, seus problemas
não acabaram, estando de frente
com a grande necessidade de acertar
seus caminhos.
Eis então que esse trabalho
se propõe a: identificar a verdadeira
situação de vida dos
kiriris na atualidade, analisando seus
aspectos sócio-culturais; comparar
a cultura remanescente com a sua cultura
original, fazendo-se perceber dos aspectos
culturais que ficaram perdidos ao longo
do tempo; indicar alguns elementos
de resgate cultural da nação
kiriri que fazem efeito no trabalho
de identificação desse
povo.
ACULTURAÇÃO
DO POVO KIRIRI
Depois
da expulsão dos holandeses,
na segunda metade do século
XVII, os portugueses cuidaram também
de ouro problema que lhes afligia:
os índios do interior que teimavam
em resistir contra a subjugação
dos brancos. Para a efetiva conquista
do interior do Nordeste era necessário
dominar os cariris (kiriris). As batalhas
de extermínio e dominação
durou quase um século, com participação
até de bandeirantes paulistas.
No rio São Francisco se estabeleceram
missões religiosas, com hostilidades
dos criadores de gado, no caso, os
da Casa da Torre, dos Garcia D''Ávila,
contra os índios.
Uma das maneiras de estudar o impacto
da modificação cultural
dos índios com o contato com
os “civilizados” há tanto
tempo, foi concentrar-se nos poucos
aspectos culturais que ainda sobrevivem.
Procura-se hoje em dia verificar o
que resta de suas antigas atividades
de subsistência, construção
de casas, cerâmica, tecelagem,
instrumentos musicais, indumentárias
para rituais, danças, remédios,
ou melhor, da sua cultura.
Os índios kiriris da tribo de
Mirandela, distante vinte quilômetros
de Ribeira do Pombal, na Bahia, que
outrora formavam uma grande nação
indígena, chegou à beira
do extermínio total. Os que
restam vivem mesclados entre povos
e culturas, esforçando para
identificar neles próprios aquilo
que é nativo e o que de “branco”,
como eles mesmos consideram.
Historicamente, cada um dos atuais
grupos indígenas do Nordeste
parece resultar de cisões e
fusões que ocorreram ao longo
de seu atribulado e secular contato
com os brancos, é o caso dos
kiriris, que nos últimos anos
lutam pela sua própria identificação
de povo, com auxílio de alguns órgãos
de assistência.
Atualmente, todos os índios
do Nordeste, não usam mais sua
língua indígena. Também
perderam a maior parte de sua cultura
indígena e da organização
social original. Como os demais, têm
suas terras invadidas, e mesmo o direito
sobre o pouco que lhes resta é colocado
em dúvida pelos vizinhos não-índios,
que não os considera mais nativos,
mas caboclos.
Vale notar que, tal como os fulniôs
e os potiguaras, que têm uma
cidade dentro de sua reserva, os kiriris
têm uma vila histórica,
mas em seu próprio domínio
há cinco anos. Os kiriris se
tornarão urbanos, afinal de
contas? Ou saberão conviver
com tais diferenças, preservando
a cultura particular que lhe resta?
A importância desse estudo recai
sobre a compreensão dessa problemática,
mediante análise da situação
em questão.
Suas terras ficaram nas mãos
de posseiros, antigos arrendatários
e invasores, considerados como os compradores
preferenciais das mesmas pelo governo
do estado por muito tempo, até o
reconhecimento das terras da reserva
há duas décadas pelo
governo federal.
Como se nota só há pouco
tempo esse povo vem tentando a sua
organização territorial,
por isso mesmo dificultosa, onde até conflitos
internos se observa. A sua aculturação
também está atrelada
a outras características do
povo dito civilizado, explorador e
individualista.
1. Os kiriris
Os
kiriris formavam uma das muitas nações indígenas
que habitavam o país, no Nordeste
destacamos algumas, segundo o historiador
Capistrano de Abreu, Tupis-guaranis,
Guaicurus, Nu-aruaques, Gês ou
Tapuias, Caraíbas, Panos, Etias
e Cariris ou Kiriris. Todas as denominações
a que ouvimos falar são, portanto,
ramos dessas nações.
A nação do kiriris se
estendia do Paraguaçu, no Ceará ao
Itapicuru, na Bahia, mais voltados
ao interior, pois os tupis-guaranis,
por serem mais poderosos e mais organizados
tomavam conta de todo o litoral.
Ainda de acordo com Capistrano, o nome
significa tristonho, calado, silencioso.
Segundo se supõe teriam chegado
a essa região (do Paraguaçu
ao Itapicuru) vindos do norte e do
noroeste, em busca desses rios e de
seus afluentes, principalmente até o
São Francisco, pois eram lugares
mais ajustados às condições
de vida e de sua cultura neolítica.
O idioma se desdobrava em 4 dialetos:
Kipeá, Dzubucuá, Camuru,
Sabujá.
No Livro Caminhos Antigos e Povoamento
do Brasil, de Capistrano de Abreu,
descreve os kiriris como valentes e
de terrível resistência,
talvez o de mais persistência
que os portugueses encontraram, para
doma-los foi preciso que os atacassem
de várias frentes, até bandeirantes
paulistas tiveram que combatê-los.
Mas o maior combatente desses índios
foi o poderoso sesmeiro Garcia d’Ávila
da Casa da Torre que se apossou de
um grande território, englobando
as terras indígenas e provocando
vários conflitos, como a "Confederação
dos Cariris" , liquidada pelos
colonizadores com brutal energia e
falta de piedade humana. Manuel Correia
de Andrade cita "(...) Após
a expulsão dos holandeses os
pernambucanos tiveram de destruir o
Quilombo dos Palmares e liquidar a
chamada Confederação
dos Cariris."
2. A Tribo
A
tribo objeto desse estudo localiza-se
no Distrito de Mirandela, distante
cerca de 20 quilômetros de Ribeira
do Pombal e 38 de Banzaê, remanescentes
dos antigos kiriris do Rio Itapicuru.
"A luta contra os índios
cariris revoltados ante a pressão
cada vez maior dos pecuaristas que
lhes tomavam a terra e os escravizavam,
fazendo por qualquer pretexto o que
chamavam de 'guerra justa', não
só possibilitou o desbravamento
do Agreste e de parte do Sertão,
como aniquilou o poderio indígena,
fazendo com que os remanescentes das
poderosas tribos se recolhessem às
serras, aos brejos altos menos acessíveis
aos brancos e menos cobiçados
pelos criadores de gado." (M.C.
de Andrade, 1973)
Nessa
localidade havia duas grandes comunidades:
a de Canabrava em Ribeira
do Pombal e a de Saco dos Morcegos,
em Mirandela. No século XVIII
chegaram nessa região os jesuítas
portugueses, iniciando ali o processo
de catequização, ao mesmo
tempo em que surgia e crescia o povoamento
de colonos, próximo demais às
aldeias. Essa proximidade e o conflito
por terras, fizeram afastar dali os índios
de Canabrava para Saco dos Morcegos,
concentrando lá a maioria dos índios
da região.
Ajudada pelos jesuítas essa tribo conseguiu persistir viva, mesmo com
suas inúmeras baixas, diante dos conflitos entre eles e os posseiros
que invadiram suas terras no decorrer dos tempos.
Foram decretadas várias leis oficializando a reserva kiriri, mas quase
nunca foram respeitadas, até que em 1982, foram demarcadas suas terras,
com indenizações dos invasores pela Funai, num processo que ainda
hoje rende notícias nos jornais.
Restam hoje cerca de mil e quinhentos índios, divididos em algumas aldeias,
sendo as principais: Mirandela e Marcação.
3. A Cultura
Eles
são escuros, baixos, fortes,
ornados de palhas e algumas penas,
carrancudos e tristonhos.
A habitação kiriri era
feita de palha de ouricuri (pindoba,
no seu linguajar) e de madeira, pequenas
e baixas, tendo no seu interior algumas
redes e esteiras (“tapetes” feitos
de pindoba).
Faziam muitas peças de cerâmica
cozida, como potes, além de
cabaças e cuias, pilão
de socar (para esmagar as sementes),
urupemba (para separar os grãos
da palha), abano (para atiçar
o fogo) e muitas outras coisas e acabaram
por se integrar á civilização
sertaneja.
Para a sobrevivência da tribo
cultivavam a mandioca, principalmente
para o preparo da farinha. Passaram
a fabricar também milho e algodão.
O toré era o ritual xamanístico
de incorporação, onde
dançavam por muito tempo pisando
forte no chão, enquanto cantavam
acompanhados do som do chocalho feitos
de cabaça.
4. A Aculturação
No
convívio forçado
entre índios e não-índios,
recheado de invasões e outras
posses, fizeram gerar conflitos horrendos
com mortes de todos os lados. Em volta
da Igreja de Nosso Senhor do Ascensão,
fundada pelos jesuítas de Miranda,
Portugal, cresceu o povoado de colonos
chamado Mirandela, ficando as aldeias
logo ao lado, num constante clima de
tensão. Eram vizinhos inimigos.
Os séculos de convívio
e de conflitos entre índios
e não-índios, diante
das variadas frentes de expansão
econômica, agrícolas e
pastoris, disputando as terras dos índios,
transmitiam-lhes doenças e estimulavam
a dependência indígena,
para mais facilmente explora-los e
utiliza-los como mão-de-obra
nos seus próprios territórios.
Os jesuítas foram os primeiros
a tirarem-nos de seu modo de vida,
soltos na caatinga para confiná-los
num povoado.
Acuados de todos os lados, foram submetidos
aos interesses do branco, por muito
tempo, sobrepujados, exterminados físico
e culturalmente, foram despojados das
suas línguas, práticas
de trabalho, rituais e formas de habitação.
Hoje, ao se chegar em Mirandela, a
primeira impressão é que
se trata de um típico povoado
do interior nordestino, casas antigas,
algumas com fachadas e rebocos barroco,
mas pouco depois vemos saírem
delas seus habitantes arredios, índios
e caboclos, que observam desconfiados
os visitantes.
Ironicamente a sede da tribo é uma
grande vila (que já foi até município),
Mirandela, fundada pelos colonos há quase
quatrocentos, sendo portanto, uma das
mais velhas povoações
da Bahia, tendo hoje cerca de duzentas
residências, quase todas seculares,
em estilo barroco. Esse acervo histórico
foi entregue ao domínio kiriri,
por situar-se dentro de sua reserva.
Talvez seja a maior e mais antiga vila
de “brancos” habitada por índios
no Brasil.
Percebe-se de imediato a mistura de
culturas pelas propagandas políticas
pregadas nas paredes, uma praça
central com jardim, uma igreja (de
quase 400 anos), um bar, padaria. Os
moradores são homens, mulheres
e crianças, de olhos repuxados
e longos cabelos lisos e negros, nas
mulheres vão até o meio
das costas ou cintura.
É
grande o número de caboclos
e cafuzos, por meio dos casamentos
entre índios, brancos e negros,
mas todos ali se definem como índios,
membros do povo kiriri. A mistura não
foi só cultural, mas racial
também, se o ritmo de cruzamentos
continuasse como estava, talvez em
pouco tempo não restasse quase
nenhuma característica desse
povo.
Usam um saiote feito com palha de pindoba
(ouricuri), quase sempre ainda verde,
mas sobre um calção ou
short. As mulheres além do saiote
usam uma tiara na testa e um sutiã,
também feitos de palha.
Alguns homens carregam ao ombro ou
amarrados na cintura uma buanga (espécie
de bolsa) feita de uma fibra que eles
denominam crauá ou caroá.
Usam também colares feitos de
sementes e arcos e flechas.
Enquanto comemoram 5 anos da retomada
de Mirandela, alguns índios
transitam de bicicleta, calçados
em sandálias Havaianas.
Eles não gostam de conversar
com estranhos, são muito desconfiados,
resultados de séculos de conflitos
com os não-índios.
Desde a época dos aldeamentos
missionários houve o estímulo
de casamento entre brancos e índios,
o que preocupou e muito a perda de
identidade cultural dos kiriris. Muitos
procuraram concentrar-se na procura
dos aspectos culturais que ainda teriam
sobrevivido, bem como sua combinação
com outros, de diferentes origens.
Os kiriris da região de Mirandela
apresentaram alguns elementos culturais
que ainda sobrevivem, como palavras
da língua indígena (mas
não falada no cotidiano), atividades
relacionadas às crenças,
ou construção de casas,
cerâmica, cestaria, tecelagem,
instrumentos musicais, indumentária
ritual, danças, remédios,
práticas funerárias.
Nas crenças observam-se práticas
nativas, como em espíritos (dos
mortos) chamados "encantados" ou "mestres" incorporadas
aos elementos católicos.
Muitos dos seus rituais foram esquecidos,
como o “Uaraquidzam”, o “Cururu”,
restando apenas algumas informações,
tendo mais sucesso a restauração
ritualística do “Toré” e
da “Cabana Sagrada”, por
meio do contato programado com outras
tribos aparentadas de outras regiões
do Estado.
Agora
já existe sob a guarda
do pajé, próximo da vila,
uma casinha de palha, destinadas aos
objetos sagrados e a algumas oferendas.
Porém a crença xamânica,
animista, resume-se apenas nos dias
desses rituais, porque normalmente
eles ainda obedecem aos rituais católicos,
com seus santos, promessas, devoção...
Até as famílias que moram
fora do povoado, nas aldeias vizinhas,
ainda preservam o costume absorvido
com o chamado homem branco, com ocas
de palha, porém com paredes
divisórias, como uma casa comum,
em detrimento das ocas originais, de
construção genuinamente
kiriri. Vivem da agricultura de subsistência
e do artesanato, principalmente potes,
panelas e pratos de barro cozido, cordas,
redes e esteiras.
O consumo de álcool, da cana-de-açúcar,
ainda é muito grande. Existe
até um bar no povoado dos kiriris.
Mas a sua bebida original também é consumida:
feita com entrecascas de uma planta
chamada jurema . Essa casca junto à água,
fermenta e embriaga, sendo usada mais
nos rituais, como no toré.
5. Resgate Cultural
Aqueles
que puderam resistir desenvolveram
algumas estratégias para o reconhecimento
de seus direitos enquanto povos e cidadãos,
a mais importante foi à recuperação
das terras pelo decreto de 1982, inclusive
ficando com o povoado. Ajudados por
alguns órgãos governamentais
(ANAI, FUNAI), estão retomando
suas atividades tradicionais, transmitidas
de geração para geração,
e adotam aquelas práticas que
ainda permanecem próximas da
original em outras tribos da mesma
nação kiriri de outros
lugares.
Os
ritos têm sido passados
recentemente de um grupo indígena
para outro, na procura de recuperar
as marcas de sua identidade. Assim,
os tuxás, de Rodelas, que mantêm
o "toré" e o "particular" ou "oculto",
uma distinção entre rito
aberto e secreto, passaram suas práti¬cas
rituais aos quiriris (dos municípios
baianos de Quijingue e Ribeira do Pombal
(atualmente a reserva pertence ao município
de Banzaê), na bacia do Itapicuru)
e aos aticuns (do município
pernambucano de Floresta).
São levados para outras tribos
aparentadas, lá desenvolvem
atividades, com o propósito
de uns aprenderem com os outros, dessa
forma muito de sua cultura está sendo
recuperada, porém ainda longe
do que foi a cultura original.
Graças ao trabalho de resgate
cultural, o toré foi melhorado,
tomando mais estrutura original.
Foram os tuxás, de Rodelas,
que mantêm mais vivo o "toré" e
o "particular" ou "oculto",
que passaram essas práticas
ritualísticas aos kiriris. Há algumas
dezenas de anos esse ritual não
passava de um esboço, agora
recuperou muitos passos que estavam
esquecidos, inclusive na língua
kipeá, da qual restavam apenas
algumas palavras, hoje conseguem formular
expressões inteiras. Como por
exemplo às palavras abaixo relacionadas,
fruto de pesquisas e de esforço
para sua incorporação
tribal:
Vocabulário quiriri (Kiriri/Kirirí)
an'i
..................................................... índio
babei'u ................................................
pés
'beñamu ............................................
surdo
bero'he ..............................................pessoa
vermelha
'bizaui ................................................
quati / cuati
bodo'yo .............................................
camaleão
bo'ze .................................................
fumo, tabaco
bru'zoho'shi ......................................
feijão
bu'an ...............................................
ema
buko .................................................
veado
bure'du po'o ....................................
muito obrigado
bu'zofo'shi .......................................
sol
'buzuku ............................................
tatu
buzuru .............................................
criação
da'sa ................................................
quente
do'be ................................................
sacola
dodo'shi ...........................................
muita gente
doro'ro .............................................
andar no mato
du'he .................................................
comida gostosa
fi'zo ..................................................
verdade
foi'pru ..............................................
cutia
hoi'pa ..............................................
nambu
hundiro ...........................................
maltrapilho
ia'ka ................................................
raposa
ia'zu .................................................
tamanduá
ikre ...................................................
sujo
'iñañi ................................................
sal
kaiu'e ...............................................
quadril
kakika ................................................
jacú, espécie de ave
kakiki ................................................
arapuá
karabu'še ......................................
.. mulher bonita
'karai ................................................
branco (cor)
kansa'bu ...........................................
cabeça
kei'u ..................................................
dinheiro
'kiko ..................................................
urubu
koha ..................................................
peneirar
kokabeke ...........................................
joelho
kokotata'panin'teu ............................
casa
'kokul'du ............................................
coxa
kombe'ñuy .........................................orelha
ko'pš ...................................................espécie
de fruta com polpa
koso'bu inši'ato ...............................
onça
kra'bo ...............................................
perto
kra'zo ................................................
carne de gado
krua'ran ............................................
pessoa amarela
kruña'vo ...........................................abóbora
lambi'zu .............................................nariz
mudu .................................................
barriga
ni'kri ..................................................
milho verde
oroo ...................................................papagaio
pai' hekinikri .....................................
milho
pannadu ............................................
pestana
pa'u ....................................................cachimbo
pedi'pi ................................................
carregado
poke'de ..............................................zangado
po'o ....................................................
cachorro
po'modo'i ...........................................
dedos
pre'zenuda .........................................
melão
ru'o infoinkiriri ...................................
fogo
sam'bo ................................................
jabuti
š en'ge ................................................
preto
š i'bo ...................................................
velho
sisi'kri ................................................alegre,
estou
so'den ................................................ água
'tana'du ..............................................
língua
tana'zu ...............................................mulher
'taroro ................................................
raso
tokya ...................................................mandioca
tu'po ..................................................
deus
'uangiu ..............................................
cobra
uan'tyo ..............................................
manco
u'ipo ..................................................
olhos
ui'sa ...................................................
dentes
u'za ....................................................
faca
zo'pre...................................................
.mentira
Fonte: PICKERING, Wilbur (ILV), Mirandela,
Ribeira do Pomba,l Bahia.
[Colaboração de Victor
A. Petrucci]
É uma
busca de si mesmos.
Legitimam e atualizam gradativamente
a sua “indianidade”,
a sua autodeterminação,
a sua identidade de povo, com seus
costumes, rituais, cultura. Espera-se
veementemente que pessoas outras
ou situações escusas
não atrapalhem ainda mais
a vida desse povo sofrido.
7. Datas históricas
De
acordo com a tradição
histórica dos índios
kiriris de Mirandela foram estabelecidas
por seus representantes, em 1995, quando
da sua comemoração pela
retomada de Mirandela, as seguintes
datas consideradas de suma importância
para a compreensão de sua cultura:
1549 - Foi fundada a cidade do Salvador
da Bahia.
1550 - Começou a construção
(concluída em 1620) da Casa
da Torre Garcia d'Ávila, no
litoral da Bahia, no lugar chamado
hoje Praia do Forte. É daí que
Francisco Dias d'Ávila e Garcia
d'Ávila vão perseguir
os índios durante quase um século.
1557- Milhares de índios viviam
nas praias do Nordeste, trocando bens
com os viajantes da Europa que se aproximavam
das praias com seus navios.
1583 - 4.000 a 5.000 índios,
apertados pela seca e pela fome, desciam
do sertão para o litoral.
1642 - Os capuchinhos franceses chegaram
a Pernambuco e, a partir de 1670, assentaram
aldeias indígenas nas margens
do Médio São Francisco.
1656 - Os jesuítas portugueses
e italianos penetraram nos sertões
até as Jacobinas (hoje cidade
do Bonfim) e encontraram várias
nações indígenas.
Aos poucos, assentaram várias
aldeias indígenas, no chamado
Caminho do Meio (de Salvador para Paulo
Afonso). O Saco dos Morcegos foi uma
delas.
1669 - Francisco Dias d'Ávila
destruiu a sede das aldeias de Itapicuru
, Maracacara e Jeremoabo. Os jesuítas
encaminharam ao rei de Portugal o pedido
de criação das reservas
indígenas em léguas quadradas.
1676 - Francisco Dias d'Ávila
travou a guerra do rio Salitre, nas
margens do São Francisco, acima
de Juazeiro; matando uns 500 índios
que tinham entregue suas armas. Suas
mulheres e filhos foram levados como
escravos.
1678 - Incentivados pela vitória
do Salitre, os portugueses de Canabrava
(Ribeira do Pombal) levaram o governador
da Bahia a travar outra guerra contra
os índios de Canabrava. Apesar
de terem deposto as armas, 180 índios
foram mortos. Graças ações
dos capuchinhos e jesuítas,
foi negado aos portugueses, pelo Tribunal
de Salvador o direito de prender as
mulheres e os fihos como escravos.
1700 - Em 23 de novembro, o rei de
Portugal, através de um alvará,
mandou que se desse às aldeias
indígenas uma légua de
terra em quadra para sua sustentação.
O rei confirmou essa doação
em 1703.
1758 - No período de expulsão
dos jesuítas, a administração
colonial quis apagar a.história
dos índios Kiriri: a aldeia "O
Saco dos Morcegos" perdeu o seu
nome para ser chamada de Mirandela.
1759 - No contexto da perseguição
e exílio dos jesuítas,
por confisco, grande parte dos bens
das aldeias jesuítas e os seus
escravos lhes foram retirados. Assim,
foi posto fim à organização
e produção econômicas
dessas aldeias. A fazenda Saco dos
Morcegos é uma delas.
1861 - Foi criado o município
de Ribeira de Pombal ao qual passou
a pertencer à aldeia de Mirandela.
1897 - Os Kiriri perderam na guerra
de Canudos parte de seus pajés
e sua própria língua.
1947 - Em 20 de maio, o padre Renato
Galvão mandou uma carta ao posto
indígena Paraguaçu, do
Serviço de proteção
ao Índio. Pedia-Ihe apoio para
os índios Kiriri de Mirandela,
frente às violências dos
brancos invasores da Reserva. Ele lembrou
a lei da Terra de 1700.
1949 - Foi criado o posto do Serviço
de Proteção ao Índio
(SPI) em Mirandela.
1974 - Uma caravana de 1.35 Kiriri,
se deslocou para a área dos índios
Tuxá, com a finalidade de reencontrar
o ritual ancestral do Toré.
1982 - Centenas de índios Kiriri
acamparam na fazenda Picos no interior
da reserva já demarcada.
1990 - Em 15 de janeiro, o presidente
Sarney publicou o decreto de homologação
do Octógono Kiriri.
1995 - Os não índios
de Mirandela deixaram aos poucos as
casas da aldeia e índios Kiriri
tomaram posse da sua capital histórica,
o Saco dos Morcegos, na festa da vitória
do 11 de novembro.
CONCLUSÃO
A cultura indígena foi vítima de uma outra considera superior,
numa nação que não soube conviver com as diferenças,
condicionando-a a uma situação subalterna, de subserviência
e exploração.
Assim mesmo aconteceu com a nação kiriri, restando apenas alguns
núcleos espalhados num território imenso do Nordeste. Tais núcleos,
ora atacados, ora usados para serviços considerados menores, foram sempre
vistos com desprezo e desdém por um povo considerado branco, mas que
na verdade não passava de mestiço também. Essa mestiçagem
tomou conta dos núcleos kiriris, transformando toda a gente num povo
sem identidade, esquecido, sobrepujado nos seus direitos. Igualmente situação
refere-se ao kiriris de Mirandela.
Mesmo tendo reconhecido seus direitos à terra indígena, demarcada
por várias vezes pelo governo federal, algumas tão antigas que
remontam do Império, nunca foram respeitadas de verdade. Mas a demarcação
de 1982 por fim, permite a posse das terras da reserva, pelos mil e quinhentos
remanescentes kiriris. Mas seus problemas não acabaram aí, pois
estes, pouco tinham preservado de sua cultura original.
Pagaram um preço alto demais com a convivência, ou sobrevivência
forçada, que durou séculos.
O remédio para esse mal terrível foi buscar suas origens naqueles
que puderam reter seus costumes, tradições, rituais, em outras
tribos mesmo que distantes. A volta ao passado permitiu que esses sobreviventes
voltassem ao presente e ajudará, certamente, a encontrar um futuro.
Muitos aspectos de sua cultura foram restabelecidos, aprendendo e reaprendendo
com outros índios. Mas ainda não é o bastante.
Uma imagem ilustra bem essa realidade sombria: uma tribo residindo numa vila
fundada por posseiros, estando urbanizados, porém pertencentes a uma
reserva indígena, cujos moradores usam sandálias havaianas e
cujas paredes de suas casas estão repletas de propagandas de políticos,
que antes de serem candidatos eram posseiros de terras indígenas.
Uma parte da caminhada foi alcançada, porém nota-se que ela não
terminou. Muito ainda têm que se andar para chegar num lugar que será o
lugar comum dessa comunidade heróica: de encontro consigo mesmo, na
reconstrução de sua verdadeira identidade. Se o resgate cultural
não for feito com afinco e determinação, talvez não
reste a esse povo a condição de figurante numa sociedade dominada
pelos interesses elitistas, destruindo uma cultura milenar.
Os kiriris foram contatados por colonizadores e missionários no século
XVII. Conseguiram sobreviver heroicamente ao processo colonizatório à aculturação
e à miscigenação e hoje se identificam como uma nação
autêntica ainda que integrada à sociedade nacional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU, Capistrano de. Caminhos Antigos
e Povoamento do Brasil, 27ª
Edição. São
Paulo. Brasiliense. 1957.
ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra
e o Homem no Nordeste.3ª Edição.
São Paulo.
Brasiliense. 1973.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.26ª Edição.
São Paulo. Companhia das Letras. 2001.
PICKERING, Wilbur (ILV).
Moradores entrevistados na aldeia de
Mirandela :
CACIQUE MANOEL CRISTÓVÃO
BUARQUE
CACIQUE LÁZARO DOS SANTOS
SR. ANTONIO SILVA
SRA. CÍCERA SANTOS
Alguns anexos:
CORDEL - ACULTURAÇÃO
A cultura de um povo
Não pode ser esquecida
Como está acontecendo
No decorrer de nossa vida
O forte impõe ao fraco
E o fraco nem se esquiva.
Não há cultura
melhor
Nem também superior
O povo que preservar
Ganhará a seu favor
A cultura de um povo
É fonte de muito valor.
Não
adianta se iludir,
Pra que se enganar?
Cada um tem jeito único
E a cultura é singular
O povo vai progredir
Se a cultura preservar.
O povo que imita outro
Procurando ser igual
Jamais será como outro
E deixará de ser o tal
É
como ser uma cópia
Não será original.
Já que
estamos nesse mundo
Em constante ligação
Jamais se pode evitar
A tal aculturação
Mas não se deve é perder
A sua própria condição.
Então qual é a solução
Pra não perder a estrutura?
Nesse mundo globalizado
Não existe vivência pura
Temos que aprender com o outro
Preservando a própria CULTURA.
Osvaldo Morais
POESIA – ACULTURAÇÃO
Kiriri:
Um povo quase extinto,
mas do que eu mais sinto
é
de vê-lo empobrecido
como nunca vi.
Kiriri:
Outrora brado valente,
Hoje, apenas voz cadente
Ouvida por pouca gente
E eu mesmo pouco ouvi.
Kiriri:
Usado com inferior,
Causando-lhe tanta dor
O abuso do invasor
E eu nada fiz.
Kiriri:
É
hora da libertação,
fortalecer-se como nação,
resistindo a aculturação
desse povo daqui.