Além dos poderes políticos que constituem os
Estados democráticos, existe mais um: a mídia. É o “quarto
poder”, cujas atividades gravitam em três esferas:
cultura de massa, comunicação e informação.
Para manter-se na competição, a mídia
se agiganta em corporações mundiais com
tecnologia de ponta.
Através de mecanismos de concentração,
essas empresas tornaram-se os principais atores da globalização,
porque tudo vêem, tudo ouvem e decidem sobre tudo.
Seu mais democrático veículo é a televisão,
uma concessão do próprio Estado, da qual, muitas
vezes, torna-se algoz, já que ela decide eleições,
derruba presidentes, provoca cortes profundos na sociedade.
A televisão no Brasil
A Constituição estabelece o prazo de 15 anos
de concessão para televisão, porém tais
concessões são renovadas “automaticamente”,
sem avaliação da sociedade que, afinal, é sua
verdadeira “proprietária”. Nascida para
informar e formar a opinião pública, ela tem
prestado excelente serviço à comunidade.
Graças à ética e à audácia
de bons profissionais, tem combatido e rejeitado decisões
ilegais, iníquas e injustas. Orienta agricultores
e sanitaristas, é uma ferramenta educacional, auxilia
na formação da cidadania, oferece um leque
de opções de esporte, turismo, moda
e lazer.
Mas
não deixa de ser apenas um veículo, cuja
direção depende dos objetivos e interesses
do condutor, quase sempre com um olho na concorrência
e outro no lucro. Assim, falta espaço para a ética
e o compromisso social em seus programas. Elisabete Santana,
membro do Fórum Paulista pela Ética na TV, é incisiva: “O
respeito à dignidade humana deu lugar a um espetáculo
de degradação; crimes e criminosos passaram
a ser objeto de glamour, como se isso fosse absolutamente
natural”.
E
continua: “A televisão brasileira tem se prestado
a uma papel de exploradora e promotora da miséria
humana, com o suporte de alguns patrocinadores, que não
atentaram para o que, de fato, estão financiando”.
Baixaria
O
sétimo ranking dos 10 programas mais denunciados
ao e-mail eticanatv@camara.gov.br, entre 7 de maio a 11 de
outubro, foi mais uma iniciativa da Comissão de Direitos
Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, através
da Campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra
a Cidadania”, coordenada pelo deputado
Orlando Fantazzini (PT/SP).
Os
campeões de baixaria na TV são,
na ordem, os seguintes:
“
Tardes Quentes”, da Rede TV, com João Kleber
(pela 3.ª vez); “Celebridade”, da Rede Globo; “Programa
do Ratinho”, do SBT; “Senhora do Destino”,
da Rede Globo; “Pânico na TV”, da Rede
TV; “Da Cor do Pecado”, da Rede Globo; “Cidade
Alerta”, da Rede Record, com Marcelo Resende; “Casos
de Família”, do SBT, com Regina Volpato; “A
Casa dos Artistas”, do SBT e “Brasil Urgente”,
da Bandeirantes, com José Luís Datena. A Campanha
foi criada em novembro de 2002 e já contabilizou mais
de 15 mil e-mails, entre manifestações de apoio
e denúncias contra os programas que desrespeitam os
direitos humanos. Segundo sua coordenação,
o povo brasileiro tem presenciado, na maioria dos programas,
a incitação ao crime; a discriminação
por raça, sexo e orientação sexual;
o desrespeito à idade da criança; a prévia
condenação de meros suspeitos e a exploração
sensacionalista da miséria humana.
Elisabete
Santana alerta: “Na medida em que isto vira
espetáculo, a sociedade tem por obrigação
cidadã manifestar-se e fazer valer a prerrogativa
de ser a única detentora desse meio de comunicação”.
Mecanismos
de Resistência
Apesar
do enorme poder de persuasão da mídia, é possível
opor-lhe uma força cidadã. A opção
mais simples é virar-lhe as costas, como aconteceu
no “Dia Nacional Contra a Baixaria na TV”,
17 de outubro, promovido pela Campanha “Quem Financia
a Baixaria é Contra a Cidadania”, quando
os telespectadores foram convidados a desligar seus aparelhos
durante uma hora.
Debates,
seminários, compromissos das redes comerciais
de televisão foram os primeiros resultados positivos
do protesto. Outra opção é criar um “quinto
poder”, não apenas o da denúncia ou
do desprezo, mas do apoio às iniciativas que têm,
como aliadas, a ética e o compromisso social.
Reality Show
A
televisão interage com o público através
de auditórios, e-mails, entrevistas, telefone. O
reality show arrasta milhões de famintos que sonham
com o estrelato. A maioria desses programas expõe
jovens sarados, tatuados, ociosos, sem compromissos sociais
ou políticos, ao voyeurismo do público. “Big
Brother Brasil”, “Sem Saída”, “Casa
do Artista” são fetiches que alimentam sonhos
efêmeros, mas coloridos. Não dão pão,
mas mostram um circo alegre e mambembe: ociosidade alheia,
disposição para a humilhação
e o ridículo, sexo sem afetividade, linguagem
chula.
O
assunto reúne educadores, psicólogos, pais,
adolescentes, cujas opiniões variam conforme a maturidade.
Os mais jovens não vêem problema algum. “É legal!
Com os micos dos outros, a gente aprende a se virar e a
vencer. Quem não convence, deve cair fora logo”,
comentou um adolescente.
Uma
professora opinou: “Isso só serve para
afastar a moçada dos compromissos com a política,
com a vida. Resta saber se a alienação é apenas
episódica ou vai se refletir na construção
da consciência crítica e da cidadania”.
Big Brother Árabe
por Giuseppe Caffulli
Há pouco tempo, Mohammed Attia, de 21 anos, desembarcou
no aeroporto do Cairo e foi saudado por um mar de adolescentes.
Attia venceu o Star Academy, o reality show transmitido
pelo canal de televisão libanês LBC, via satélite.
Ele venceu 15 concorrentes, entre milhares de rapazes e
moças do Líbano, Síria, Tunísia,
Marrocos, Egito, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes.
O canal transmitiu a convivência de moças
e rapazes sob o mesmo teto, desafiando-se no canto, na
recitação, no balé.O vencedor ganhou
50 mil dólares e um contrato, por cinco anos, com
a gravadora EMI. 80% dos libaneses, entre 15 e 25 anos,
acompanharam a transmissão, segundo o instituto
Stat-Ipsos. A imprensa egípcia também comentou
a verdadeira obsessão entre os jovens egípcios
da mesma faixa de idade. O sucesso de Star Academy suscitou,
em todo o mundo árabe, uma avalanche de críticas
e de polêmicas.
Hanzada
Fikry, um docente, comentou:
“
Há de se perguntar se o fato de um jovem se rivalizar
contra outro, de outros países, ao invés
de favorecer a unidade do mundo árabe, não
esteja cultivando um nacionalismo prejudicial”. Embora
dentro dos padrões islâmicos (sem sexo, álcool,
saunas, duchas, piscinas e palavrões), os reality
show são hoje o principal canal, através
do qual chega o estilo de vida ocidental, com
seus desvios consumistas.
O
chefe máximo do Islã Saudita manifesta-se:
“
Eles convidam ao pecado. Os muçulmanos não
devem segui-los”.
Khaldoun
Solh, cientista político, interpreta o
fato como estratégia: eles “afastam os jovens árabes
dos atuais conflitos, enquanto o Iraque é ocupado
pelos imperialistas americanos e a Palestina é um
banho de sangue”.
Os
jovens divergem:
“
Os jovens árabes têm os mesmos
sonhos e desejos dos demais”. “Dançar
e cantar, até sem
véu no rosto, não é mais
negativo”. “Pela
primeira vez, o jovem árabe pode
votar livremente, e não nos habituais
dinossauros do governo”. Avvenire