21 Dez 2014 Domingo
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Osvaldo Morais - Aculturação dos Índios Kiriris
Por Osvaldo Morais



Resumo do trabalho apresentado na graduação de História, na AESA


INTRODUÇÃO


A nação dos índios kiriris (ou cariris, quiriris), se estabelecia ao longo de grande quantidade de terra no Nordeste. Tem um passado de glória, sendo estudados até pelo grande historiador Capistrano de Abreu, mas que no decorrer do processo colonizatório, onde a prioridade dos governos sempre fora ocupar o interior, os colonos acabaram por invadir as terras kiriris, desfacelando a nação.

O povo ficou fragmentado em muitas comunidades, umas distantes das demais, cada uma delas as margens da sociedade dos “brancos”, prestando pequenos serviços aos seus próprios invasores para a sua sobrevivência.

Os kiriris de Mirandela chamam a atenção por possuírem um enredo curioso e conflituoso, com chamadas constantes na imprensa, mediante os conflitos e o convívio com os posseiros em suas próprias terras. Nesse convívio, os kiriris pouco a pouco acabaram por absorver a cultura dos “civilizados”, ao mesmo tempo em que perdiam sua identidade de povo.
Uma cultura bonita, com peculiaridades de rituais, crenças, línguas, dentre tantas, quase perdida na memória do tempo, das Misturas e mestiçagens por séculos.

Por outro lado verifica-se todo um trabalho voltado ao resgate cultural desse povo. Agora se faz um trabalho inverso: aculturá-los, porém com outros índios da mesma origem, com aqueles que mais resistiram com as suas tradições.

A situação das comunidades indígenas chega a ser bastante preocupante na atualidade, em razão dos agravantes abandonos e descasos por parte de todos. É o caso da tribo kiriri de Mirandela, onde mesmo tendo conseguido a demarcação e posse de sua reserva, seus problemas não acabaram, estando de frente com a grande necessidade de acertar seus caminhos.

Eis então que esse trabalho se propõe a: identificar a verdadeira situação de vida dos kiriris na atualidade, analisando seus aspectos sócio-culturais; comparar a cultura remanescente com a sua cultura original, fazendo-se perceber dos aspectos culturais que ficaram perdidos ao longo do tempo; indicar alguns elementos de resgate cultural da nação kiriri que fazem efeito no trabalho de identificação desse povo.

ACULTURAÇÃO DO POVO KIRIRI


Depois da expulsão dos holandeses, na segunda metade do século XVII, os portugueses cuidaram também de ouro problema que lhes afligia: os índios do interior que teimavam em resistir contra a subjugação dos brancos. Para a efetiva conquista do interior do Nordeste era necessário dominar os cariris (kiriris). As batalhas de extermínio e dominação durou quase um século, com participação até de bandeirantes paulistas. No rio São Francisco se estabeleceram missões religiosas, com hostilidades dos criadores de gado, no caso, os da Casa da Torre, dos Garcia D''Ávila, contra os índios.

Uma das maneiras de estudar o impacto da modificação cultural dos índios com o contato com os “civilizados” há tanto tempo, foi concentrar-se nos poucos aspectos culturais que ainda sobrevivem.

Procura-se hoje em dia verificar o que resta de suas antigas atividades de subsistência, construção de casas, cerâmica, tecelagem, instrumentos musicais, indumentárias para rituais, danças, remédios, ou melhor, da sua cultura.

Os índios kiriris da tribo de Mirandela, distante vinte quilômetros de Ribeira do Pombal, na Bahia, que outrora formavam uma grande nação indígena, chegou à beira do extermínio total. Os que restam vivem mesclados entre povos e culturas, esforçando para identificar neles próprios aquilo que é nativo e o que de “branco”, como eles mesmos consideram.

Historicamente, cada um dos atuais grupos indígenas do Nordeste parece resultar de cisões e fusões que ocorreram ao longo de seu atribulado e secular contato com os brancos, é o caso dos kiriris, que nos últimos anos lutam pela sua própria identificação de povo, com auxílio de alguns órgãos de assistência.

Atualmente, todos os índios do Nordeste, não usam mais sua língua indígena. Também perderam a maior parte de sua cultura indígena e da organização social original. Como os demais, têm suas terras invadidas, e mesmo o direito sobre o pouco que lhes resta é colocado em dúvida pelos vizinhos não-índios, que não os considera mais nativos, mas caboclos.

Vale notar que, tal como os fulniôs e os potiguaras, que têm uma cidade dentro de sua reserva, os kiriris têm uma vila histórica, mas em seu próprio domínio há cinco anos. Os kiriris se tornarão urbanos, afinal de contas? Ou saberão conviver com tais diferenças, preservando a cultura particular que lhe resta? A importância desse estudo recai sobre a compreensão dessa problemática, mediante análise da situação em questão.

Suas terras ficaram nas mãos de posseiros, antigos arrendatários e invasores, considerados como os compradores preferenciais das mesmas pelo governo do estado por muito tempo, até o reconhecimento das terras da reserva há duas décadas pelo governo federal.

Como se nota só há pouco tempo esse povo vem tentando a sua organização territorial, por isso mesmo dificultosa, onde até conflitos internos se observa. A sua aculturação também está atrelada a outras características do povo dito civilizado, explorador e individualista.


1. Os kiriris


Os kiriris formavam uma das muitas nações indígenas que habitavam o país, no Nordeste destacamos algumas, segundo o historiador Capistrano de Abreu, Tupis-guaranis, Guaicurus, Nu-aruaques, Gês ou Tapuias, Caraíbas, Panos, Etias e Cariris ou Kiriris. Todas as denominações a que ouvimos falar são, portanto, ramos dessas nações.

A nação do kiriris se estendia do Paraguaçu, no Ceará ao Itapicuru, na Bahia, mais voltados ao interior, pois os tupis-guaranis, por serem mais poderosos e mais organizados tomavam conta de todo o litoral.

Ainda de acordo com Capistrano, o nome significa tristonho, calado, silencioso. Segundo se supõe teriam chegado a essa região (do Paraguaçu ao Itapicuru) vindos do norte e do noroeste, em busca desses rios e de seus afluentes, principalmente até o São Francisco, pois eram lugares mais ajustados às condições de vida e de sua cultura neolítica. O idioma se desdobrava em 4 dialetos: Kipeá, Dzubucuá, Camuru, Sabujá.

No Livro Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil, de Capistrano de Abreu, descreve os kiriris como valentes e de terrível resistência, talvez o de mais persistência que os portugueses encontraram, para doma-los foi preciso que os atacassem de várias frentes, até bandeirantes paulistas tiveram que combatê-los.

Mas o maior combatente desses índios foi o poderoso sesmeiro Garcia d’Ávila da Casa da Torre que se apossou de um grande território, englobando as terras indígenas e provocando vários conflitos, como a "Confederação dos Cariris" , liquidada pelos colonizadores com brutal energia e falta de piedade humana. Manuel Correia de Andrade cita "(...) Após a expulsão dos holandeses os pernambucanos tiveram de destruir o Quilombo dos Palmares e liquidar a chamada Confederação dos Cariris."

2. A Tribo


A tribo objeto desse estudo localiza-se no Distrito de Mirandela, distante cerca de 20 quilômetros de Ribeira do Pombal e 38 de Banzaê, remanescentes dos antigos kiriris do Rio Itapicuru.

"A luta contra os índios cariris revoltados ante a pressão cada vez maior dos pecuaristas que lhes tomavam a terra e os escravizavam, fazendo por qualquer pretexto o que chamavam de 'guerra justa', não só possibilitou o desbravamento do Agreste e de parte do Sertão, como aniquilou o poderio indígena, fazendo com que os remanescentes das poderosas tribos se recolhessem às serras, aos brejos altos menos acessíveis aos brancos e menos cobiçados pelos criadores de gado." (M.C. de Andrade, 1973)

Nessa localidade havia duas grandes comunidades: a de Canabrava em Ribeira do Pombal e a de Saco dos Morcegos, em Mirandela. No século XVIII chegaram nessa região os jesuítas portugueses, iniciando ali o processo de catequização, ao mesmo tempo em que surgia e crescia o povoamento de colonos, próximo demais às aldeias. Essa proximidade e o conflito por terras, fizeram afastar dali os índios de Canabrava para Saco dos Morcegos, concentrando lá a maioria dos índios da região.

Ajudada pelos jesuítas essa tribo conseguiu persistir viva, mesmo com suas inúmeras baixas, diante dos conflitos entre eles e os posseiros que invadiram suas terras no decorrer dos tempos.

Foram decretadas várias leis oficializando a reserva kiriri, mas quase nunca foram respeitadas, até que em 1982, foram demarcadas suas terras, com indenizações dos invasores pela Funai, num processo que ainda hoje rende notícias nos jornais.
Restam hoje cerca de mil e quinhentos índios, divididos em algumas aldeias, sendo as principais: Mirandela e Marcação.

3. A Cultura


Eles são escuros, baixos, fortes, ornados de palhas e algumas penas, carrancudos e tristonhos.

A habitação kiriri era feita de palha de ouricuri (pindoba, no seu linguajar) e de madeira, pequenas e baixas, tendo no seu interior algumas redes e esteiras (“tapetes” feitos de pindoba).

Faziam muitas peças de cerâmica cozida, como potes, além de cabaças e cuias, pilão de socar (para esmagar as sementes), urupemba (para separar os grãos da palha), abano (para atiçar o fogo) e muitas outras coisas e acabaram por se integrar á civilização sertaneja.
Para a sobrevivência da tribo cultivavam a mandioca, principalmente para o preparo da farinha. Passaram a fabricar também milho e algodão.

O toré era o ritual xamanístico de incorporação, onde dançavam por muito tempo pisando forte no chão, enquanto cantavam acompanhados do som do chocalho feitos de cabaça.


4. A Aculturação


No convívio forçado entre índios e não-índios, recheado de invasões e outras posses, fizeram gerar conflitos horrendos com mortes de todos os lados. Em volta da Igreja de Nosso Senhor do Ascensão, fundada pelos jesuítas de Miranda, Portugal, cresceu o povoado de colonos chamado Mirandela, ficando as aldeias logo ao lado, num constante clima de tensão. Eram vizinhos inimigos.

Os séculos de convívio e de conflitos entre índios e não-índios, diante das variadas frentes de expansão econômica, agrícolas e pastoris, disputando as terras dos índios, transmitiam-lhes doenças e estimulavam a dependência indígena, para mais facilmente explora-los e utiliza-los como mão-de-obra nos seus próprios territórios.

Os jesuítas foram os primeiros a tirarem-nos de seu modo de vida, soltos na caatinga para confiná-los num povoado.

Acuados de todos os lados, foram submetidos aos interesses do branco, por muito tempo, sobrepujados, exterminados físico e culturalmente, foram despojados das suas línguas, práticas de trabalho, rituais e formas de habitação.

Hoje, ao se chegar em Mirandela, a primeira impressão é que se trata de um típico povoado do interior nordestino, casas antigas, algumas com fachadas e rebocos barroco, mas pouco depois vemos saírem delas seus habitantes arredios, índios e caboclos, que observam desconfiados os visitantes.

Ironicamente a sede da tribo é uma grande vila (que já foi até município), Mirandela, fundada pelos colonos há quase quatrocentos, sendo portanto, uma das mais velhas povoações da Bahia, tendo hoje cerca de duzentas residências, quase todas seculares, em estilo barroco. Esse acervo histórico foi entregue ao domínio kiriri, por situar-se dentro de sua reserva. Talvez seja a maior e mais antiga vila de “brancos” habitada por índios no Brasil.

Percebe-se de imediato a mistura de culturas pelas propagandas políticas pregadas nas paredes, uma praça central com jardim, uma igreja (de quase 400 anos), um bar, padaria. Os moradores são homens, mulheres e crianças, de olhos repuxados e longos cabelos lisos e negros, nas mulheres vão até o meio das costas ou cintura.

É grande o número de caboclos e cafuzos, por meio dos casamentos entre índios, brancos e negros, mas todos ali se definem como índios, membros do povo kiriri. A mistura não foi só cultural, mas racial também, se o ritmo de cruzamentos continuasse como estava, talvez em pouco tempo não restasse quase nenhuma característica desse povo.

Usam um saiote feito com palha de pindoba (ouricuri), quase sempre ainda verde, mas sobre um calção ou short. As mulheres além do saiote usam uma tiara na testa e um sutiã, também feitos de palha.

Alguns homens carregam ao ombro ou amarrados na cintura uma buanga (espécie de bolsa) feita de uma fibra que eles denominam crauá ou caroá. Usam também colares feitos de sementes e arcos e flechas.

Enquanto comemoram 5 anos da retomada de Mirandela, alguns índios transitam de bicicleta, calçados em sandálias Havaianas.

Eles não gostam de conversar com estranhos, são muito desconfiados, resultados de séculos de conflitos com os não-índios.

Desde a época dos aldeamentos missionários houve o estímulo de casamento entre brancos e índios, o que preocupou e muito a perda de identidade cultural dos kiriris. Muitos procuraram concentrar-se na procura dos aspectos culturais que ainda teriam sobrevivido, bem como sua combinação com outros, de diferentes origens.

Os kiriris da região de Mirandela apresentaram alguns elementos culturais que ainda sobrevivem, como palavras da língua indígena (mas não falada no cotidiano), atividades relacionadas às crenças, ou construção de casas, cerâmica, cestaria, tecelagem, instrumentos musicais, indumentária ritual, danças, remédios, práticas funerárias.

Nas crenças observam-se práticas nativas, como em espíritos (dos mortos) chamados "encantados" ou "mestres" incorporadas aos elementos católicos.

Muitos dos seus rituais foram esquecidos, como o “Uaraquidzam”, o “Cururu”, restando apenas algumas informações, tendo mais sucesso a restauração ritualística do “Toré” e da “Cabana Sagrada”, por meio do contato programado com outras tribos aparentadas de outras regiões do Estado.

Agora já existe sob a guarda do pajé, próximo da vila, uma casinha de palha, destinadas aos objetos sagrados e a algumas oferendas. Porém a crença xamânica, animista, resume-se apenas nos dias desses rituais, porque normalmente eles ainda obedecem aos rituais católicos, com seus santos, promessas, devoção...

Até as famílias que moram fora do povoado, nas aldeias vizinhas, ainda preservam o costume absorvido com o chamado homem branco, com ocas de palha, porém com paredes divisórias, como uma casa comum, em detrimento das ocas originais, de construção genuinamente kiriri. Vivem da agricultura de subsistência e do artesanato, principalmente potes, panelas e pratos de barro cozido, cordas, redes e esteiras.

O consumo de álcool, da cana-de-açúcar, ainda é muito grande. Existe até um bar no povoado dos kiriris. Mas a sua bebida original também é consumida: feita com entrecascas de uma planta chamada jurema . Essa casca junto à água, fermenta e embriaga, sendo usada mais nos rituais, como no toré.


5. Resgate Cultural


Aqueles que puderam resistir desenvolveram algumas estratégias para o reconhecimento de seus direitos enquanto povos e cidadãos, a mais importante foi à recuperação das terras pelo decreto de 1982, inclusive ficando com o povoado. Ajudados por alguns órgãos governamentais (ANAI, FUNAI), estão retomando suas atividades tradicionais, transmitidas de geração para geração, e adotam aquelas práticas que ainda permanecem próximas da original em outras tribos da mesma nação kiriri de outros lugares.

Os ritos têm sido passados recentemente de um grupo indígena para outro, na procura de recuperar as marcas de sua identidade. Assim, os tuxás, de Rodelas, que mantêm o "toré" e o "particular" ou "oculto", uma distinção entre rito aberto e secreto, passaram suas práti¬cas rituais aos quiriris (dos municípios baianos de Quijingue e Ribeira do Pombal (atualmente a reserva pertence ao município de Banzaê), na bacia do Itapicuru) e aos aticuns (do município pernambucano de Floresta).

São levados para outras tribos aparentadas, lá desenvolvem atividades, com o propósito de uns aprenderem com os outros, dessa forma muito de sua cultura está sendo recuperada, porém ainda longe do que foi a cultura original.

Graças ao trabalho de resgate cultural, o toré foi melhorado, tomando mais estrutura original.
Foram os tuxás, de Rodelas, que mantêm mais vivo o "toré" e o "particular" ou "oculto", que passaram essas práticas ritualísticas aos kiriris. Há algumas dezenas de anos esse ritual não passava de um esboço, agora recuperou muitos passos que estavam esquecidos, inclusive na língua kipeá, da qual restavam apenas algumas palavras, hoje conseguem formular expressões inteiras. Como por exemplo às palavras abaixo relacionadas, fruto de pesquisas e de esforço para sua incorporação tribal:


Vocabulário quiriri (Kiriri/Kirirí)

an'i ..................................................... índio
babei'u ................................................ pés
'beñamu ............................................ surdo
bero'he ..............................................pessoa vermelha
'bizaui ................................................ quati / cuati
bodo'yo ............................................. camaleão
bo'ze ................................................. fumo, tabaco
bru'zoho'shi ...................................... feijão
bu'an ............................................... ema
buko ................................................. veado
bure'du po'o .................................... muito obrigado
bu'zofo'shi ....................................... sol
'buzuku ............................................ tatu
buzuru ............................................. criação
da'sa ................................................ quente
do'be ................................................ sacola
dodo'shi ........................................... muita gente
doro'ro ............................................. andar no mato
du'he ................................................. comida gostosa
fi'zo .................................................. verdade
foi'pru .............................................. cutia
hoi'pa .............................................. nambu
hundiro ........................................... maltrapilho
ia'ka ................................................ raposa
ia'zu ................................................. tamanduá
ikre ................................................... sujo
'iñañi ................................................ sal
kaiu'e ............................................... quadril
kakika ................................................ jacú, espécie de ave
kakiki ................................................ arapuá
karabu'še ...................................... .. mulher bonita
'karai ................................................ branco (cor)
kansa'bu ........................................... cabeça
kei'u .................................................. dinheiro
'kiko .................................................. urubu
koha .................................................. peneirar
kokabeke ........................................... joelho
kokotata'panin'teu ............................ casa
'kokul'du ............................................ coxa
kombe'ñuy .........................................orelha
ko'pš ...................................................espécie de fruta com polpa
koso'bu inši'ato ............................... onça
kra'bo ............................................... perto
kra'zo ................................................ carne de gado
krua'ran ............................................ pessoa amarela
kruña'vo ...........................................abóbora
lambi'zu .............................................nariz
mudu ................................................. barriga
ni'kri .................................................. milho verde
oroo ...................................................papagaio
pai' hekinikri ..................................... milho
pannadu ............................................ pestana
pa'u ....................................................cachimbo
pedi'pi ................................................ carregado
poke'de ..............................................zangado
po'o .................................................... cachorro
po'modo'i ........................................... dedos
pre'zenuda ......................................... melão
ru'o infoinkiriri ................................... fogo
sam'bo ................................................ jabuti
š en'ge ................................................ preto
š i'bo ................................................... velho
sisi'kri ................................................alegre, estou
so'den ................................................ água
'tana'du .............................................. língua
tana'zu ...............................................mulher
'taroro ................................................ raso
tokya ...................................................mandioca
tu'po .................................................. deus
'uangiu .............................................. cobra
uan'tyo .............................................. manco
u'ipo .................................................. olhos
ui'sa ................................................... dentes
u'za .................................................... faca
zo'pre................................................... .mentira


Fonte: PICKERING, Wilbur (ILV), Mirandela, Ribeira do Pomba,l Bahia.
[Colaboração de Victor A. Petrucci]


É uma busca de si mesmos. Legitimam e atualizam gradativamente a sua “indianidade”, a sua autodeterminação, a sua identidade de povo, com seus costumes, rituais, cultura. Espera-se veementemente que pessoas outras ou situações escusas não atrapalhem ainda mais a vida desse povo sofrido.


7. Datas históricas


De acordo com a tradição histórica dos índios kiriris de Mirandela foram estabelecidas por seus representantes, em 1995, quando da sua comemoração pela retomada de Mirandela, as seguintes datas consideradas de suma importância para a compreensão de sua cultura:
1549 - Foi fundada a cidade do Salvador da Bahia.

1550 - Começou a construção (concluída em 1620) da Casa da Torre Garcia d'Ávila, no litoral da Bahia, no lugar chamado hoje Praia do Forte. É daí que Francisco Dias d'Ávila e Garcia d'Ávila vão perseguir os índios durante quase um século.
1557- Milhares de índios viviam nas praias do Nordeste, trocando bens com os viajantes da Europa que se aproximavam das praias com seus navios.
1583 - 4.000 a 5.000 índios, apertados pela seca e pela fome, desciam do sertão para o litoral.
1642 - Os capuchinhos franceses chegaram a Pernambuco e, a partir de 1670, assentaram aldeias indígenas nas margens do Médio São Francisco.
1656 - Os jesuítas portugueses e italianos penetraram nos sertões até as Jacobinas (hoje cidade do Bonfim) e encontraram várias nações indígenas. Aos poucos, assentaram várias aldeias indígenas, no chamado Caminho do Meio (de Salvador para Paulo Afonso). O Saco dos Morcegos foi uma delas.
1669 - Francisco Dias d'Ávila destruiu a sede das aldeias de Itapicuru , Maracacara e Jeremoabo. Os jesuítas encaminharam ao rei de Portugal o pedido de criação das reservas indígenas em léguas quadradas.
1676 - Francisco Dias d'Ávila travou a guerra do rio Salitre, nas margens do São Francisco, acima de Juazeiro; matando uns 500 índios que tinham entregue suas armas. Suas mulheres e filhos foram levados como escravos.
1678 - Incentivados pela vitória do Salitre, os portugueses de Canabrava (Ribeira do Pombal) levaram o governador da Bahia a travar outra guerra contra os índios de Canabrava. Apesar de terem deposto as armas, 180 índios foram mortos. Graças ações dos capuchinhos e jesuítas, foi negado aos portugueses, pelo Tribunal de Salvador o direito de prender as mulheres e os fihos como escravos.
1700 - Em 23 de novembro, o rei de Portugal, através de um alvará, mandou que se desse às aldeias indígenas uma légua de terra em quadra para sua sustentação. O rei confirmou essa doação em 1703.
1758 - No período de expulsão dos jesuítas, a administração colonial quis apagar a.história dos índios Kiriri: a aldeia "O Saco dos Morcegos" perdeu o seu nome para ser chamada de Mirandela.
1759 - No contexto da perseguição e exílio dos jesuítas, por confisco, grande parte dos bens das aldeias jesuítas e os seus escravos lhes foram retirados. Assim, foi posto fim à organização e produção econômicas dessas aldeias. A fazenda Saco dos Morcegos é uma delas.
1861 - Foi criado o município de Ribeira de Pombal ao qual passou a pertencer à aldeia de Mirandela.
1897 - Os Kiriri perderam na guerra de Canudos parte de seus pajés e sua própria língua.
1947 - Em 20 de maio, o padre Renato Galvão mandou uma carta ao posto indígena Paraguaçu, do Serviço de proteção ao Índio. Pedia-Ihe apoio para os índios Kiriri de Mirandela, frente às violências dos brancos invasores da Reserva. Ele lembrou a lei da Terra de 1700.
1949 - Foi criado o posto do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em Mirandela.
1974 - Uma caravana de 1.35 Kiriri, se deslocou para a área dos índios Tuxá, com a finalidade de reencontrar o ritual ancestral do Toré.
1982 - Centenas de índios Kiriri acamparam na fazenda Picos no interior da reserva já demarcada.
1990 - Em 15 de janeiro, o presidente Sarney publicou o decreto de homologação do Octógono Kiriri.
1995 - Os não índios de Mirandela deixaram aos poucos as casas da aldeia e índios Kiriri tomaram posse da sua capital histórica, o Saco dos Morcegos, na festa da vitória do 11 de novembro.

CONCLUSÃO


A cultura indígena foi vítima de uma outra considera superior, numa nação que não soube conviver com as diferenças, condicionando-a a uma situação subalterna, de subserviência e exploração.

Assim mesmo aconteceu com a nação kiriri, restando apenas alguns núcleos espalhados num território imenso do Nordeste. Tais núcleos, ora atacados, ora usados para serviços considerados menores, foram sempre vistos com desprezo e desdém por um povo considerado branco, mas que na verdade não passava de mestiço também. Essa mestiçagem tomou conta dos núcleos kiriris, transformando toda a gente num povo sem identidade, esquecido, sobrepujado nos seus direitos. Igualmente situação refere-se ao kiriris de Mirandela.

Mesmo tendo reconhecido seus direitos à terra indígena, demarcada por várias vezes pelo governo federal, algumas tão antigas que remontam do Império, nunca foram respeitadas de verdade. Mas a demarcação de 1982 por fim, permite a posse das terras da reserva, pelos mil e quinhentos remanescentes kiriris. Mas seus problemas não acabaram aí, pois estes, pouco tinham preservado de sua cultura original.

Pagaram um preço alto demais com a convivência, ou sobrevivência forçada, que durou séculos.

O remédio para esse mal terrível foi buscar suas origens naqueles que puderam reter seus costumes, tradições, rituais, em outras tribos mesmo que distantes. A volta ao passado permitiu que esses sobreviventes voltassem ao presente e ajudará, certamente, a encontrar um futuro.

Muitos aspectos de sua cultura foram restabelecidos, aprendendo e reaprendendo com outros índios. Mas ainda não é o bastante.

Uma imagem ilustra bem essa realidade sombria: uma tribo residindo numa vila fundada por posseiros, estando urbanizados, porém pertencentes a uma reserva indígena, cujos moradores usam sandálias havaianas e cujas paredes de suas casas estão repletas de propagandas de políticos, que antes de serem candidatos eram posseiros de terras indígenas.
Uma parte da caminhada foi alcançada, porém nota-se que ela não terminou. Muito ainda têm que se andar para chegar num lugar que será o lugar comum dessa comunidade heróica: de encontro consigo mesmo, na reconstrução de sua verdadeira identidade. Se o resgate cultural não for feito com afinco e determinação, talvez não reste a esse povo a condição de figurante numa sociedade dominada pelos interesses elitistas, destruindo uma cultura milenar.
Os kiriris foram contatados por colonizadores e missionários no século XVII. Conseguiram sobreviver heroicamente ao processo colonizatório à aculturação e à miscigenação e hoje se identificam como uma nação autêntica ainda que integrada à sociedade nacional.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ABREU, Capistrano de. Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil, 27ª
Edição. São Paulo. Brasiliense. 1957.
ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra e o Homem no Nordeste.3ª Edição. São Paulo.
Brasiliense. 1973.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.26ª Edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2001.
PICKERING, Wilbur (ILV).

Moradores entrevistados na aldeia de Mirandela :
CACIQUE MANOEL CRISTÓVÃO BUARQUE
CACIQUE LÁZARO DOS SANTOS
SR. ANTONIO SILVA
SRA. CÍCERA SANTOS

Alguns anexos:


CORDEL - ACULTURAÇÃO

A cultura de um povo
Não pode ser esquecida
Como está acontecendo
No decorrer de nossa vida
O forte impõe ao fraco
E o fraco nem se esquiva.

Não há cultura melhor
Nem também superior
O povo que preservar
Ganhará a seu favor
A cultura de um povo
É fonte de muito valor.

Não adianta se iludir,
Pra que se enganar?
Cada um tem jeito único
E a cultura é singular
O povo vai progredir
Se a cultura preservar.

O povo que imita outro
Procurando ser igual
Jamais será como outro
E deixará de ser o tal
É como ser uma cópia
Não será original.

Já que estamos nesse mundo
Em constante ligação
Jamais se pode evitar
A tal aculturação
Mas não se deve é perder
A sua própria condição.

Então qual é a solução
Pra não perder a estrutura?
Nesse mundo globalizado
Não existe vivência pura
Temos que aprender com o outro
Preservando a própria CULTURA.

Osvaldo Morais

POESIA – ACULTURAÇÃO


Kiriri:
Um povo quase extinto,
mas do que eu mais sinto
é de vê-lo empobrecido
como nunca vi.

Kiriri:
Outrora brado valente,
Hoje, apenas voz cadente
Ouvida por pouca gente
E eu mesmo pouco ouvi.

Kiriri:
Usado com inferior,
Causando-lhe tanta dor
O abuso do invasor
E eu nada fiz.

Kiriri:
É hora da libertação,
fortalecer-se como nação,
resistindo a aculturação
desse povo daqui.

 

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